sábado, julho 13, 2024

Especialistas discutem potencial do mercado do hidrogênio e de captura de carbono no Brasil

Compartilhar

“O hidrogênio é um insumo industrial que pode substituir carvão e gás natural em processos industriais em larga escala. A transição está caminhando, mas é uma longa batalha. O Brasil tem recursos naturais abundantes para isso, mas a pergunta é como escalar. Boa parte da redução de emissões até 2050 virá de tecnologias ainda não disponíveis no dia de hoje. A tecnologia usada na produção eólica e solar, por exemplo, já existe e para se tornar de grande escala depende apenas de capital. A energia verde, por sua vez, não depende só de capital, depende da ciência”, disse Winston Fritsch, ex-secretário de Política Econômica no Ministério da Fazenda e curador emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

Ele foi o keynote speaker do primeiro dia dos eventos Hydrogen Expo  South America e a Carbon Caputure South America, que aconteceram na semana passada para discutir a produção de hidrogênio como forma de energia sustentável e a transição energética como um processo gradual.

Na visão de Fritsch, o custo de capital e os desafios logísticos do transporte do hidrogênio ainda são desafios importantes para o desenvolvimento da produção, armazenamento e exploração do hidrogênio. Entretanto, diz, o país tem vantagens naturais competitivas incomparáveis.

Abrindo os trabalhos do segundo dia do evento, Camila Ramos, fundadora da CELA, trouxe números que traduziram o potencial do hidrogênio. “Sou uma entusiasta do setor de transição energética, com mais de 21 anos nesse setor. Há dois anos, a CELA vem trabalhando dedicada ao setor de armazenamento de energia e hidrogênio verde. Temos muitas expectativas por esse composto e seus derivados, principalmente com diversidade de aplicações que pode ter no futuro”, disse.

A executiva trouxe números divulgados pela Bloomberg que projetam que o hidrogênio verde deve demandar entre 12 a 22% de energia do mundo inteiro até 2050. “A oferta do hidrogênio com baixo carbono deve crescer 30 vezes até 2030, um valor bastante alto. A China, a Europa e os Estados Unidos vão responder por 80% da oferta de hidrogênio de baixo carbono em 2030. Apenas os Estados Unidos vão responder por 37%. São dados importantes para todos o mundo”, avaliou.

Indústria de Mobilidade e Logística

Outro painel do dia abordou a questão do hidrogênio aplicado ao transporte. O presidente AHK Rio e Managing Director da MAN Energy Solutions Brasil, Jens Hüren, trouxe mais informações sobre a indústria de mobilidade e a produção de carbono, bem como possíveis soluções para a substituição do hidrogênio cinza pelo hidrogênio com baixo carbono. “Como a MAN Energy Solutions faz parte do Grupo Volkswagen, sabemos que a indústria de transporte faz parte da dinâmica da produção de CO2. Vamos precisar do hidrogênio para atingirmos o objetivo de descarbonizar a nossa frota, seja de caminhão ou de ônibus. Mas o grande desafio que enfrentamos no Brasil é a logística de transporte.”

As etapas necessárias para o desenvolvimento da indústria do hidrogênio foram tema da participação do diretor de P & D da Tupy e integrante do Comitê de Hidrogênio da SAE Brasil, André Ferrarese. “Investigamos maneiras de fomentar a indústria do hidrogênio. No caso de biomassas sólidas, existe uma possibilidade que, combinada com a eletrólise, poderia triplicar a produção de hidrogênio com a mesma entrada de eletricidade. Existe toda uma indústria que já usa o hidrogênio cinza e que precisa ser descarbonizada.”

Representando a perspectiva das montadoras no processo de descarbonização, o head de novos negócios de hidrogênio da Hyundai Motors, Anderson Suzuki, reforçou a preocupação com a emissão de carbono e o avanço do aquecimento global. “As tecnologias verdes estão ganhando cada vez mais força, assim como investimentos para novos desenvolvimentos. Devemos agir agora para mitigar o avanço do aquecimento global. Precisamos de planos concretos e da preocupação de vários setores envolvidos. Temos um compromisso em formar uma cidade sustentável e vamos atingir esse objetivo.”

A montadora apresentou no evento o Nexo, veículo movido a hidrogênio, que estará em exposição no Brasil pela primeira vez. Um SUV de porte médio, o Hyundai Nexo tem potência combinada de 183 cv entre a propulsão de célula de combustível e o motor elétrico, e oferece uma autonomia de 666 quilômetros (ciclo WLTP). O veículo incorpora ainda tecnologias inovadoras, como a purificação de ar durante a rodagem, o que garante uma experiência de condução ainda mais limpa e saudável.

A Hyundai também expandiu suas soluções em hidrogênio para além dos veículos de passeio, incluindo caminhões, ônibus, bondes, equipamentos especiais, embarcações, geradores de energia e mobilidade aérea avançada.

Para abordar o papel do hidrogênio no segmento de ônibus, o engenheiro de desenvolvimento de produto da Marcopolo, Gustavo Giusti apresentou dados sobre os caminhos necessários para a descarbonização do transporte coletivo com hidrogênio. “Nosso plano é agir na mobilidade, em todas as suas formas. É um momento importante para novos investimentos e novos projetos. A Marcopolo entende que todas as soluções são possíveis, pois cada uma tem sua particularidade, seu mercado que vai receber esse tipo de tecnologia.”

Financiamento

O evento foi palco de um anúncio de relevância para o setor de hidrogênio: novas opções de financiamento foram liberadas que impactam positivamente todo o mercado. O Diretor da Hytron, Daniel Lopes, comentou: “Nossos compressores já se beneficiam do FINAME, mas agora tivemos a confirmação que também os nossos eletrolisadores passaram a ser finamizáveis. Esta novidade vem sendo estruturada ao longo do último ano, demandada por nós, mas também por nossos clientes do setor elétrico brasileiro, que nos pediam opções de financiamento para os nossos eletrolisadores. Isso é muito importante porque viabiliza parte do investimento e diminui o impacto na operação”, festejou.

Lopes falou também da popularização do hidrogênio no Brasil e das soluções integradas para a produção de hidrogênio de baixo carbono. “O tema do hidrogênio está se popularizando no Brasil e isso é esforço de muito trabalho em conjunto. Até pouco tempo não tínhamos a bandeira do Brasil no mapa da indústria de mobilidade sustentável. Ainda é um mercado a ser construído, mas precisamos tornar realidade os esforços e avanços que estão em desenvolvimento. O grupo Neuman & Esser, do qual faz parte a Hytron, está presente em diversos países e estamos aumentando nosso faturamento e nossa equipe de funcionários. Quanto mais empresas estiverem juntas, maior a possibilidade de tudo acontecer.”

Hidrogênio e a indústria

Um dos painéis mais concorridos reuniu executivos de empresas de grande expressão na economia internacional que debateram o atual posicionamento da indústria brasileira para o uso de hidrogênio e PtX, especialmente a Neo-Industrialização.

Diretora executiva da ABIHV (Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde), Fernanda Delgado, e o diretor executivo de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras, Maurício Tolmasquim, destacaram a necessidade de acelerar a corrida pela indústria de hidrogênio verde e os esforços da Petrobras na produção de hidrogênio de origem fóssil. “Precisamos acelerar essa corrida pela indústria brasileira, principalmente pela vantagem competitiva que o Brasil tem. Outros países estão se organizando para realizar o mesmo que queremos realizar, então precisamos avançar os processos”, declarou Fernanda.

Tolmasquim acrescentou: “No Brasil a Petrobras é a principal produtora e consumidora de hidrogênio de origem fóssil. O hidrogênio é elemento fundamental de vários produtos de baixo carbono e de vários combustíveis renováveis que precisam do hidrogênio para serem produzidos. Ele está ligado a uma estratégia de diversificação de produtos”.

Já a gerente geral de Otimização e Comercialização de Energia da Vale, Juliana Chagas, enfatizou as oportunidades para o hidrogênio nas cadeias de mineração e siderurgia e os investimentos das empresas em outras opções energéticas. “Temos como meta atingir 100% de energia renovável no Brasil até 2025 e no mundo até 2030. O Sol do Cerrado é uma das maiores plantas solares da América Latina e atende cerca de 16% de toda a energia consumida pela Vale em suas operações no Brasil. São aproximadamente 1.4 milhões de placas solares, que correspondem a 1.3 mil campos de futebol. Houve uma mudança cultural e de desenvolvimento para a implementação dessa planta solar, gerando não apenas sustentabilidade como diversas oportunidades de emprego. É uma jornada complexa, mas estamos mergulhados nela.”

Participantes do painel que discutiu hidrogênio e indústria, o diretor de sustentabilidade do Porto de Suape (PE), Carlos Cavalcanti, e o country manager da Fortescue, Luiz Viga, analisaram o potencial do Nordeste para a produção de energia renovável barata.

Cavalcanti destacou que o porto de Suape tem em sua concepção a sustentabilidade. “Dizemos que somos verdes de origem. Metade da área que abriga as indústrias e o porto é de preservação ecológica; trata-se de um porto com uma concepção muito moderna, desenvolvido desde o início como para ser um complexo industrial portuário. Estamos muito próximos a outras regiões importantes para o Nordeste brasileiro e a região precisa ser compreendida como uma região com grande potencial para a produção de uma energia renovável barata. Temos condição de vender essa região como uma região estratégica para a economia de baixo carbono”, disse.

Viga comentou que a indústria em geral deveria considerar investimentos em outras regiões do país. “Precisamos sair um pouco da região Sudeste com Rio e São Paulo, temos regiões cujo potencial ainda não foi 5% explorado. Além do Brasil ter energia renovável, temos o CO2 biogênico. Estamos falando de um potencial verdadeiramente grande.

A Fortescue é uma das quatro grandes mineradoras do mundo, presente em mais de 100 países. “Isso nos dá uma visão holística sobre o que está acontecendo internacionalmente e nos permite tomar decisões sobre onde e como é melhor investir. Queremos ser produtores de hidrogênio verde, queremos estar em todas as etapas do ciclo. A mineração é uma área com muita emissão de CO2 e, para isso, estamos investindo US$ 6,2 bilhões de dólares até 2030 para descarbonizar operações”, complementou Viga.

O desafio do marco regulatório

Vários especialistas, incluindo a diretora de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Hidrogênio (ABH2), Danielle Valois, o deputado federal e presidente da Comissão Especial de Transição Energética e Produção de Hidrogênio Verde, Arnaldo Jardim, o diretor do Programa da Secretaria de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Gustavo Henrique; a CEO da ABIHV, Fernanda Delgado, e a presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEÓLICA), Elbia Aparecida, discutiram a importância das políticas públicas e dos incentivos para desenvolver a indústria de hidrogênio no Brasil.

“Estive neste mesmo evento no ano passado e podemos olhar com alegria o período que se viveu de 2023 para cá. Tivemos uma evolução muito significativa do número de empreendimentos da transição energética. Não é um processo isolado: hoje, a questão do hidrogênio, sua regulamentação, a oportunidade de hidrogênio ser um fator de exportação, é compreendido como um elemento estratégico para o fortalecimento da nossa matriz produtiva nacional”, afirmou o deputado federal, Arnaldo Jardim. 

Já Danielle Valois, da ABH2, comentou: “o que se busca quando falamos de hidrogênio, é ter a certeza de que para cada quilo de hidrogênio produzido, há uma quantidade de CO2 capturada. O Brasil só tem a se beneficiar; temos todas as fontes para a produção de hidrogênio, tecnologias estão em desenvolvimento no mundo. Trata-se de uma mudança muito importante.

“Preparamos um pacote relevante de incentivos, que em nossa visão tem o potencial de destravar essa indústria do hidrogênio. Desconheço um setor que, hoje, tenha um pacote tão robusto de políticas para incentivar seu desenvolvimento como a indústria de hidrogênio, com exceção do projeto voltado para o petróleo. O primeiro projeto que esperamos que seja aprovado mais rapidamente é o do mercado de carbono. É um grande projeto que vai criar demanda para a indústria do hidrogênio”, acrescentou Gustavo.

Na sua fala final, Elbia, da ABEEÓLICA, destacou: “Percebemos, quando começamos a olhar para o hidrogênio lá em 2020, que há uma necessidade do desenvolvimento dessa indústria. Usamos nossa experiência com energia eólica, com energia solar e entendemos que é muito importante que tenhamos a união de interesses dos setores da indústria de energia de baixo carbono. Temos que saber qual o papel de cada instituição, do Estado, do Poder Legislativo, do Poder Executivo. E o primeiro passo é a aprovação do Projeto de Lei”, finalizou. 

Parceria Estratégica

O evento também foi marcado por um evento significativo para o futuro da energia sustentável no Brasil. Representantes de órgãos públicos do Brasil e Noruega oficializaram um memorando de entendimento entre a EPE e a Innovation Norway, órgão do governo norueguês para fomento e desenvolvimento de parcerias internacionais e negócios, com foco no desenvolvimento de soluções inovadoras para a captura de carbono, que reforça o compromisso mútuo com a sustentabilidade.

Durante a cerimônia de assinatura do acordo de colaboração, Mette Tangen, Cônsul Geral da Noruega, enfatizou a prioridade da descarbonização no setor de petróleo e gás e a importância da captura e armazenamento de carbono (CCS). “A CCS é uma das cinco prioridades do Consulado Geral da Noruega no Brasil. Agradecemos à Innovation Norway por promover esta colaboração com a EPE,” afirmou Tangen.

Thomas Conrad, diretor da Innovation Norway, reforçou os laços entre os dois países e destacou o pioneirismo da Noruega em iniciativas de CCS. “Acreditamos que a colaboração e a inovação são fundamentais para avançarmos na transição energética. A Noruega tem sido pioneira em iniciativas de CCS e desde então, o aprimoramento tecnológico e nosso compromisso com uma economia de baixo carbono tem viabilizado o maior projeto de estocagem de carbono no mundo, localizado no mar do Norte. Esperamos compartilhar nosso conhecimento e experiência, aprendendo as perspectivas brasileiras. A EPE é a parceira ideal para seguirmos essa jornada. Esse memorando é mais do que um acordo formal, é uma promessa de colaboração contínua, pois acreditamos que a colaboração é a chave para avançarmos na mitigação de mudanças climáticas,” declarou Conrad.

A diretora de petróleo, gás e biocombustíveis da EPE, Heloísa Borges, destacou a complexidade do equilíbrio entre diferentes componentes das políticas públicas em relação às emissões de carbono no Brasil. “A jornada rumo à neutralidade de carbono exige compensar ou evitar uma quantidade significativa de emissões. Começamos a mapear a relevância de cada área do território nacional e a relevância da tecnologia em cada região para direcionar estratégias mais eficientes. Precisamos construir redes de colaboração que permitam a inovação, identificar novas fontes de oportunidades. Temos uma parceria com a Noruega, que já vem desenvolvendo essa tecnologia há um tempo e vem desenvolvendo em parceria com o Brasil. Para encontrarmos soluções, a colaboração é fundamental,” afirmou Heloísa.

Já o diretor de Estudos Econômico-Estratégicos e Ambientais da EPE, Geovani Machado, reforçou a importância histórica e estratégica da colaboração entre Brasil e Noruega. “O Brasil foi um dos primeiros países a reconhecer a independência da Noruega. Hoje, celebramos um passo importante para formalizar nosso interesse mútuo em alcançar a neutralidade climática até 2050,” disse Machado.

Leia Mais

Outras Notícias