quinta-feira, junho 20, 2024

Gestão dos resíduos de desastre no RS: desafios e oportunidades de engajamento

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Com a diminuição do nível dos rios no Rio Grande do Sul (RS), da água emerge um tsunami de resíduos de desastre, que ameaçam a saúde pública, dificultam a reconstrução e impactam o meio ambiente.

Desastres decorrentes de grandes volumes de chuvas e inundações geram resíduos sólidos e líquidos incluindo, por exemplo, concreto, tijolo, telha, aço, madeira, vidro, postes e fios elétricos, equipamentos eletrônicos, resíduos naturais (lama, árvores, galhos), produtos químicos, barcos, carros, ônibus e móveis. Bens materiais e imateriais perdidos pelas pessoas e organizações públicas e privadas.

As montanhas de entulho, lixo e sujeira em todo o estado impõe um desafio complexo no território gaúcho, que demanda solução imediata, com visão de adaptação aos riscos climáticos e resiliência no longo prazo. Os aterros sanitários existentes no estado provavelmente não darão conta do volume expressivo de resíduos de desastre, que se soma aos resíduos domésticos, em um território com 11 milhões de habitantes que vivem um caos social, econômico e ambiental.

Análise realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com a empresa Mox Debris, indica que as inundações e deslizamentos espalharam cerca de 46,7 milhões de toneladas de entulho nos municípios gaúchos, resultado da avaria ou destruição de 400 mil construções urbanas até 06/05/2024. Entulho é o resíduo gerado pelas atividades de construção civil ou demolição. Essa é a dimensão do problema dos resíduos de desastre relacionado a apenas um setor econômico – construção civil.

Daniela Garcia, CEO do Capitalismo Consciente Brasil

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) propõe para gestores públicos um conjunto de diretrizes e ferramentas para gerenciamento de resíduos de desastres em situação de emergência. O plano de gestão deve priorizar a redução dos riscos à vida e saúde humana, minimizar os impactos ambientais e garantir que o valor dos resíduos de desastres seja percebido, em benefício das comunidades impactadas.

A recomendação do PNUMA na fase inicial de recuperação é mapear os riscos para priorizar as ações. Há quatro tipos de riscos mais comuns: químicos, biológicos, físicos e ambientais. Os riscos químicos são decorrentes do contato com metais pesados volatilizados, pesticidas, ácidos, produtos de combustão incompleta e compostos orgânicos voláteis. Os riscos biológicos incluem doenças como leptospirose, infecções bacterianas, vetores de doenças de animais nos resíduos e proliferação de mosquitos transmissores de malária e dengue, por exemplo.

Os riscos físicos podem se materializar com o colapso de edifícios e outras construções, cortes com objetos pontiagudos em resíduos, acidentes com veículos transportando resíduos em áreas urbanas ou rurais. Já os riscos ambientais ocorrem com a contaminação do solo e águas, geração de metano nos aterros sanitários e lixões com a decomposição dos resíduos, infestação de roedores e insetos que se alimentam de resíduos.

Mapear os riscos mais comuns dos resíduos de desastre é apenas o ponto de partida para tantos problemas complexos que demandam ação urgente na reconstrução do estado. O que fazer com os resíduos demanda o estabelecimento de arranjos institucionais, governança multinível, investimento, desenvolvimento tecnológico e ação coletiva de atores públicos e privados. As soluções não estão prontas para a gestão dos resíduos de desastres.

A má gestão dos resíduos de desastres oriundos de setores de alto impacto ambiental como construção civil, eletrônicos, colchões, móveis, eletrodomésticos e tantos outros vai agravar o impacto humanitário e ambiental no estado. Por outro lado, a separação e valoração dos resíduos pode gerar emprego, renda e novos modelos de negócios na economia circular.

O Rio Grande do Sul levará anos para se reerguer da catástrofe climática e maior impacto socioeconômico no país. Os governos nos níveis municipal e estadual não vão conseguir sozinhos restabelecer a economia do estado, garantindo a retomada da dignidade e bem-estar de muitos que perderam tudo.

Na lógica do Capitalismo Consciente, um negócio é bom quando cria valor para a sociedade e o planeta, é ético quando embasado em trocas voluntárias, é nobre quando eleva a nossa existência humana com dignidade, é heroico quando tira as pessoas da pobreza e gera prosperidade.

Esse artigo é um convite à reflexão a todos os tomadores de decisão que se importam com a tragédia climática e humanitária no RS, e uma chamada à ação para lideranças conscientes de todos os setores para promoverem articulações intersetoriais, que visem a co-criação de soluções para a crise do lixo que emerge e se agrava rapidamente no estado.

Para as lideranças que reconhecem o problema, fica a provocação e generoso convite para agir coletivamente no apoio efetivo aos municípios, no nível local da gestão dos resíduos de desastres.

Vamos juntos liderar a gestão dos resíduos de desastre no RS? Sua consciência muda o Mundo!

Vanessa Pinsky, especialista em sustentabilidade e Conselheira Deliberativa do Capitalismo Consciente Brasil, e Daniela Garcia, CEO do Capitalismo Consciente Brasil.  

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