quinta-feira, junho 20, 2024

Você sabe o custo real dos esforços para estruturar e manter um programa de integridade efetivo?

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Após mais de uma década assessorando diversos clientes na avaliação dos mecanismos de controles internos que possam contribuir para um ambiente íntegro e ético em suas organizações, prevenindo e combatendo desvios comportamentais, atos de fraude ou atos de corrupção, percebo que uma das maiores dores dos executivos de compliance diz respeito à percepção de abordagem de custo por parte da alta diretoria.

Talvez, ao iniciar a leitura deste artigo, você perceberá que minhas ponderações podem até acentuar essa abordagem de “custo”, uma vez que, já afirmo de antemão, os responsáveis pela área de compliance de uma organização subestimam os recursos financeiros que são empenhados por eles mesmos. Agora vou destrinchar para você o que quero dizer com essa afirmação.

Geralmente, as empresas preparam seus orçamentos internos por áreas, que irão compor o planejamento estratégico geral para alcançar seus objetivos. Os objetivos estratégicos podem ser os mais distintos, como uma expansão dos negócios, o desenvolvimento de um novo produto, a construção de iniciativas afirmativas ou até o fortalecimento e/ou reposicionamento da marca.

Daí, são realizadas projeções, contendo receita esperada, despesas e custos estimados, investimentos em marketing, deduções, amortizações e descontos aceitos e assim por diante. Não somente a área comercial e correlatas constarão nesse orçamento anual, mas todas as áreas que, direta ou indiretamente, podem impactar positiva ou negativamente para a construção dos objetivos estratégicos.

Eis que, nessa confusão organizacional, temos uma área que muitas vezes é deixada de “escanteio” ou vista como “irrelevante”, uma vez que não há correlação clara sobre suas contribuições positivas para cooperar no atingimento dos objetivos estratégicos.
Pois bem, o que normalmente é compreendido como parte de orçamento da área de compliance de uma organização vincula-se: 1- Ao custo da folha de pagamento diretamente empregada para desenvolver as atividades de compliance, ou seja, a força de trabalho poderá variar de empresa para empresa, com mix de profissionais de qualificações distintas ou, até, de forma exclusiva a um único profissional; 2- Às horas dedicadas pelos profissionais internos ou externos para preparo e realização do programa de treinamentos; 3- Ao custo da plataforma para recebimento, gestão e tratamento das denúncias, eventualmente, despesas com advogados ou possíveis indenizações relacionadas; e, 4- Ao valor das soluções tecnológicas desenhadas para mitigar riscos de conformidade e/ou violações às leis, regulamentos ou políticas internas.
Ocorre que há informações ou dados que não são refletidos nesses números, porque a alta diretoria precisa quantificar e avaliar se os retornos alcançados estão sendo consistentes com os custos reais. Agora você irá me perguntar: você quer dizer que a área de compliance é muito mais custosa do que já percebida? E perdoe desapontá-los, mas minha resposta é: certamente! Mas não me interpretem mal, afinal, meu propósito neste artigo é demonstrar que o valor de estar em conformidade ou em compliance é muito maior do que se calcula ou do que se coloca numa planilha orçamentária anual.

Isso significa que não são declarados nesses números:

As milhares de horas dedicadas por todos os níveis de profissionais, de toda uma organização, quando atuam de forma diligente, consistente e de forma ética em suas atividades;
As horas de membros da alta diretoria, de colaboradores, de terceirizados e de prestadores de serviços que são convidados a participar das sessões de treinamento, parte constante do Programa de Integridade da organização, que objetiva difundir uma cultura de integridade no exercício de suas funções e atribuições laborais;

O impacto positivo que a organização pode ter ao adotar iniciativas que visam contribuir com o desenvolvimento econômico e social do elo familiar da sua força de trabalho e da sua cadeia de terceiros, da comunidade em que atua em geral;

A mitigação do impacto negativo das fraudes que são prevenidas por meio de um efetivo Programa de Integridade. Segundo a última pesquisa Occupational Fraud 2024: Report to the Nations, mais de 3,1 bilhões de dólares foram perdidos em 1.921 casos de fraude mapeados em 138 países e territórios que foram consultados, o que, por sua vez, leva os CEOs a considerarem que o impacto de fraudes pode consumir 5% da receita anual de suas empresas. Deixo claro aqui que não constam nestas estatísticas eventuais impactos negativos na reputação da organização ou ainda a potencial desvalorização de seu valor de mercado, caso seja uma empresa de capital aberto, com ações negociadas em bolsa e esteja envolvida em questões sensíveis ou de não conformidade;

Os investimentos realizados pelas respectivas equipes, não se limitando à área de compliance das organizações, que, em geral, buscam se manter tecnicamente atualizadas, por meio de horas dedicadas em estudos, fora do horário de expediente, participação em conferências, seminários, workshops, obtenção de certificações relacionadas às suas especializações etc.
Portanto, trago a indagação final deste artigo: as métricas estabelecidas para mensurar o real valor – que já não considero mais, a esta altura, um custo – de estar em conformidade estão apropriadas?

Tendo a concordar que não é um processo simples, de fato, e requer aperfeiçoamento na medida que tivermos consciência de que “estar em conformidade” é, sim, mais estratégico do que se imagina e não um custo-figurante que compõe um planejamento estratégico. Por isso, revisar de forma periódica essa perspectiva junto às áreas de negócio, com pleno suporte da alta diretoria, é fundamental para que demonstremos a relevância de “estar em conformidade”, ou seja, da área de compliance nas organizações.

Em suma, da mesma maneira que investir em marketing de vendas traz resultados para uma organização, potencializar os investimentos em compliance cooperará com o fortalecimento dos valores, da cultura de conformidade, do reconhecimento da organização perante o mercado, gerando valor tanto para o público interno e quanto para o público externo.

Michelle Moreira, especialista em compliance e head de Investigação na Kassy Consultoria & Gestão Empresarial.

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