sábado, maio 25, 2024

Enchentes no Rio Grande do Sul: Adaptação climática e mudança de paradigmas

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As enchentes que vêm assolando o Estado do Rio Grande do Sul – 414 municípios dos 497 gaúchos foram afetados pelas chuvas – são mais um alerta, dentre tantos, de que os efeitos das mudanças climáticas não são um fenômeno do futuro e, sim, um problema do presente. No ano de 2023, a temperatura média do planeta superou em 1,4oC a média histórica usada como parâmetro para avaliar o aquecimento global.

Esse aumento é muito próximo do limite de 1,5oC estabelecido por cientistas para que as consequências das mudanças climáticas sejam efetivamente controladas e seus impactos na vida terrestre, minimizados. Evidentemente, a vida humana não se encerrará caso a meta não seja cumprida, no entanto, fenômenos como tempestades e secas prolongadas, queda na produção agrícola, problemas sanitários e extinção em massa de seres vivos se intensifica a cada fração de grau Celsius aumentada na temperatura.

Como enfrentamento aos problemas já contratados, é urgente que as cidades sejam adaptadas para ganhar resiliência. Cada aglomeração urbana possui suas particularidades geográficas, sociais e climáticas e, portanto, não há uma formulação única de soluções possíveis, entretanto, algumas premissas básicas devem ser respeitadas.

Por exemplo, é necessário que áreas vegetais degradadas sejam recompostas, margens de rios e encostas sejam re-naturalizadas, de forma a reduzir os efeitos de chuvas intensas, centros urbanos e periferias sejam arborizados, para reduzir a temperatura média e insolação de pedestres, e limitar, quando não proibir, o uso de veículos automotores individuais, priorizando o transporte público e meios não poluentes. Para tanto, não é possível pensar em soluções ‘cosméticas’, e sim estruturais: as cidades precisam ser cada vez mais autossuficientes e deslocamentos cotidianos devem ser minimizados, tornando as ruas caminháveis.

Mudanças na infraestrutura devem vir, obrigatoriamente, acompanhadas de evoluções técnicas que têm, inevitavelmente, implicações políticas, como, por exemplo, a abolição do uso de combustíveis fósseis, desmatamento zero, a implementação de agricultura de baixo carbono e mudanças no meio produtivo. São alterações significativas, custosas e que terão um enorme impacto social e cultural, mas, infelizmente, o modo como a sociedade foi projetada desde a Revolução Industrial mostrou-se inviável a longo prazo. As soluções de engenharia existem, os meios de implementá-las tecnicamente também, mas, globalmente, estão emperradas por razões de natureza política.

Para que possamos construir um futuro viável, é imprescindível a união da sociedade civil e de profissionais de diferentes formações – técnicos, engenheiros, geógrafos, filósofos, cientistas políticos, dentre outros. Não existe nenhum modelo pretérito dentro da sociedade ocidental que possa substituir de forma sustentável o atual. É urgente pensar o futuro olhando para frente, e não para trás.

Leonardo Sanches Previti, engenheiro Civil do Centro de Pesquisas – Divisão de Ensaios e Análises – do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).

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