quarta-feira, maio 22, 2024

A tecnologia contra o desperdício de alimentos

Compartilhar

Em 27 de março, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou um dado alarmante:  mais de 1 bilhão de refeições foram desperdiçadas por dia, em 2022, em todo o mundo. Isso ocorre enquanto 783 milhões de pessoas passam fome e um terço da população mundial enfrenta algum tipo de insegurança alimentar, de acordo com o Relatório do Índice de Desperdício de Alimentos 2024. O impacto ambiental também impressiona, pois o desperdício de alimentos é responsável por emissões de gases de efeito estufa cinco vezes maiores do que as do setor de aviação.

Não é à toa que uma das metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, a de número 12.3, é reduzir pela metade o desperdício per capita até 2030, tanto no varejo quanto no consumo, e diminuir perdas de alimentos ao longo de toda a cadeia de produção e distribuição. Para tornar isso uma realidade, além de políticas públicas e a conscientização da sociedade, iniciativas público-privadas e o investimento em soluções tecnológicas são medidas essenciais para alinhar todos os agentes em prol da resolução do problema de maneira sistêmica.  

De acordo com dados do movimento Pacto contra a Fome, 55 milhões de toneladas de alimentos de um total de 161 milhões produzidos anualmente no Brasil vão para o lixo. Essas perdas ocorrem em todo o processo da cadeia de alimentos, começando na colheita, passando pelo armazenamento e transporte, manufatura, até chegar no varejo e restaurantes, e posteriormente ao consumidor.

Com um custo total de perda de alimentos estimado em US$1 trilhão a cada ano, tecnologias capazes de identificar e tratar as causas do desperdício não só oferecem maior rentabilidade às empresas, como também trazem um impacto positivo ao mundo. Lidar com o manejo de alimentos tem inúmeras variáveis, desde as condições climáticas até monitorar o trânsito, por isso, o desenvolvimento e aplicação de tecnologias avançadas, como a Inteligência Artificial e a rastreabilidade, farão toda a diferença na redução do desperdício de alimentos. 

Uma das variáveis consideradas no tratamento dos dados e que apresenta uma alta correlação com maiores índices de desperdício é a temperatura. Países quentes, como o Brasil, tendem a ter mais sobras devido ao maior consumo de alimentos frescos, que estragam mais rápido e exigem refrigeração e cuidado constantes. O segmento mais afetado por esse fator climático e de conservação são as frutas, legumes e verduras (FLV), que, por serem mais frágeis, requerem maior atenção desde a colheita. No varejo, controlar bem o estoque e fazer pedidos precisos de acordo com a demanda pode significar a diferença entre um produto ser vendido e consumido, ou então ir para o lixo. Esse é um caso perfeito para a aplicação da inteligência artificial, que já está sendo usada para analisar de forma dinâmica diferentes tipos de dados, com objetivo de prever melhor as vendas e otimizar os níveis de estoque.   

Os países precisam também registrar melhor as informações sobre o caminho dos alimentos, o que, apesar de haver avanços desde 2021, ainda é insuficiente para o nível de desperdício atual. Por isso, um dos fatores mais importantes nessa luta para garantir mais comida disponível para as pessoas é o uso de tecnologia para o monitoramento e rastreabilidade dos alimentos por toda a cadeia, o que permitirá um melhor planejamento dos países para o alcance das metas da ONU. 

Para provar que é possível atuar e realizar mudanças em escala, dois países são exemplos para o mundo: Japão e Reino Unido reduziram o desperdício per capita em 31% e 18%, respectivamente, entre 2007 e 2021. Iniciativas como o mapeamento obrigatório do desperdício nas organizações, o destino otimizado para doações e a alimentação animal, além de programas de conscientização da população como o britânico “Love Food, Hate Waste”, são alguns dos exemplos que os levaram a atingir esses resultados. 

O desafio é grande, e temos cada vez menos tempo para realizar essa mudança. É por isso que incentivar o desenvolvimento de novas tecnologias e a colaboração entre os diversos setores, indústrias e governos são movimentos importantes para construir uma gestão mais inteligente e eficaz de toda a cadeia de alimentos.

 Aline Azevedo, fundadora e diretora de Produtos da Aravita.

Leia Mais

Outras Notícias