sábado, maio 25, 2024

Ações afirmativas são caminho para ampliar representatividade étnico-racial na ciência

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Dados divulgados pela organização Parent in Science revelaram que, das 1.192 bolsas do CNPq nível 1A – ou seja, direcionadas a pesquisadores no primeiro escalão da produtividade brasileira, com pelo menos oito anos de doutorado – apenas 0,7% beneficiam homens negros e cientistas, enquanto nenhuma pesquisadora negra foi contemplada. Além disso, do total de 16.108 bolsas CNPq em vigência em 2023, apenas 15,8% tinham participação de pessoas pardas, enquanto 2,8% contemplavam pessoas pretas – um enorme contraste em comparação ao cenário população do Brasil, onde 55,5% da população se autodeclara preta ou parda, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O mercado de trabalho para pesquisadores negros, no entanto, vem demonstrando sinais de mudanças positivas em termos de representatividade e algumas empresas já vem investindo em ações afirmativas nesse sentido. Em 2023, a Avon inaugurou em Cajamar/SP o seu novo Centro de Inovação Global e, com a abertura de contratações para compor seus novos times de pesquisa e desenvolvimento, definiu como objetivo a inclusão de grupos sub-representados em 30%, incluindo profissionais negros.

É o caso de Felipe Carvalho que foi um dos contratados para atuar em P&D Global na Avon na área de produtos de Cuidados com o Corpo e Higiene Pessoal. Além de estudar, planejar e desenvolver fórmulas para vários tons de pele e tipos de cabelo no laboratório, ele também tem a oportunidade de liderar uma reunião mensal sobre diversidade, equidade e inclusão com o time de cientistas da marca. O objetivo da iniciativa é tornar o ambiente de trabalho mais acolhedor e seguro para todos e contribuir para o desenvolvimento de produtos que consideram as necessidades e demandas de todas as pessoas.

Felipe conta que já passou por episódios de racismo e homofobia ao longo de sua trajetória profissional e, em vários lugares onde estudou e trabalhou sempre era um dos poucos negros, o que fez com que começasse a duvidar de si mesmo e da sua capacidade de se tornar cientista. “Quando decidi entrar na universidade para estudar Química, foi um misto de felicidade e medo por não saber se daria certo. Sou um homem preto, gay e morador da periferia do Rio de Janeiro. É difícil sonhar quando não se tem referências”, explica.

Após concluir os estudos, Felipe se tornou a primeira pessoa de sua família a conquistar um diploma de nível superior. “O caminho para pessoas sub-representadas é cheio de barreiras. Como vim de uma família pobre, sempre houve uma cobrança para que eu ingressasse no mercado de trabalho rapidamente e não ficasse apenas estudando, mas sempre acreditei que poderia mudar minha realidade através da educação”.

Hoje, ele conta que consegue usar suas vivências para inovar e passou por um longo processo para reconhecer suas potencialidades. “Agora consigo unir minha paixão por ciência com meu objetivo de contribuir positivamente para a sociedade. Acredito que sem diversidade não há inovação e precisamos dessa representatividade dentro das equipes para conseguirmos ter avanços. Orgulho-me de poder desenvolver produtos que atendem as necessidades dos consumidores e, sobretudo, respeitam a individualidade de cada um, elevando a autoestima das pessoas sem ditar padrões de beleza”.

Já Marina Leal, que desde criança sonhava em trabalhar com pesquisa e desenvolvimento de cosméticos, começou sua trajetória na Avon como estagiária e, em 2023, foi efetivada para atuar na área de P&D Global de Fragrâncias da Avon. Para conquistar o objetivo, cursou duas graduações – Biomedicina e Farmácia – com o auxílio de uma bolsa 100% e sempre contou com o apoio da família, principalmente de sua mãe, que é sua maior inspiração. “Meus pais se separam quando eu tinha seis anos e minha mãe criou minha irmã e eu sozinha, com a ajuda da minha avó. Minha infância e adolescência foi cercada de mulheres fortes, que sempre batalharam e se dedicaram para eu ter boas oportunidades”, conta.

Agora ela realiza o sonho de trabalhar como cientista, desenvolvendo fórmulas e criando produtos tanto na parte de perfumaria, quanto as formulações que acompanham esse perfume, como loções corporais, hidratantes, sabonetes. “Para mim é um privilégio perceber que estou em uma empresa que valoriza a diversidade em todos os âmbitos, seja de gênero, étnico-racial, social”.

Desde 2020, a Avon possui uma série de metas com o objetivo de ampliar a representatividade negra na companhia, presentes em seu Compromisso Antirracista e conectadas os objetivos de sustentabilidade do Compromisso com a Vida de Natura &Co, do qual a Avon faz parte. Algumas delas incluem a contratação de 50% de pessoas pretas e garantir que 30% das posições de liderança da companhia sejam ocupadas por mulheres negras até 2030.

Além disso, a empresa também possui a Rede pela Diversidade, um grupo formado por colaboradores voluntários em parceria com a área de Recursos Humanos e o comitê executivo da companhia que se reúnem periodicamente para garantir um ambiente de trabalho mais plural, além de promover debates e ações de conscientização sobre inclusão, incluindo étnico-racial. O grupo Natura &Co também possui grupos de afinidades, como o Raízes, que reúne cerca de 100 colaboradores voluntários para liderar ações de engajamento no ambiente corporativo e participação na definição de estratégias da empresa, como projetos de desenvolvimento de produtos e ações de comunicação voltados para a diversidade étnico-racial.

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