quarta-feira, maio 22, 2024

Como alcançamos a independência energética com zero emissão de carbono?

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Nos últimos anos, os prazos para a transição energética para além dos combustíveis fósseis importados aceleraram rapidamente. No entanto, os apelos dos cientistas da ONU (Organização das Nações Unidas) pela redução rápida nas emissões de gases de efeito estufa permanecem tão urgentes como sempre foram.

Diante desse cenário, muitos ativistas climáticos temem que a agitação nos mercados de energia desvie as prioridades da descarbonização. Há alguma verdade nisso no curto prazo, à medida que os países buscam novas fontes de energia temporárias.

Não devemos, contudo, perder a perspectiva sobre a solução de longo prazo e o fato de que um objetivo não exclui o outro — podemos fazer ambos. Precisamos alcançar mais segurança energética e é possível fazer isso continuando no caminho rumo à independência energética com zero emissão de carbono. Na verdade, a segurança energética é como a independência energética, e a chave para chegar a esse estágio é alcançarmos maior eletrificação, digitalização e energia com zero emissão de carbono.
Reduzindo a demanda de energia

De forma geral, a solução consiste em três abordagens: eletrificação; eficiência energética digitalizada; e energia com zero emissão de carbono. Juntas, essas tecnologias existentes e escaláveis podem reduzir a demanda de energia enquanto substituem os combustíveis fósseis importados.

A eletricidade é a forma mais eficiente de energia – e devemos eletrificar todos os processos que pudermos. É mais limpo, e cada vez mais custo-eficaz, cozinhar sem gás, aquecer edifícios sem óleo e abastecer carros sem gasolina.

Por exemplo: um dado do Conselho de Recursos Naturais dos Estados Unidos demonstra que um motor elétrico converte 85% da energia elétrica em energia mecânica, ao passo que motores de combustão interna só convertem 40%. Com isso, a eletrificação em massa reduz a demanda por combustíveis fósseis.

A eficiência energética é outra maneira de reduzir a demanda por combustíveis fósseis e, na verdade, é a heroína ainda não reconhecida da descarbonização. A eficiência não se limita, porém, a um melhor isolamento e melhores projetos de construção. Também não se trata de substituir um antigo sistema HVAC por bombas de calor. Essas medidas têm grandes impactos, mas é possível ir muito além.

A inteligência digital torna visíveis enormes quantidades de desperdício de energia invisível. Com o uso da inteligência artificial (IA), gêmeos digitais e outros softwares, é possível criar rastreadores habilitados para a internet das coisas (IoT) em residências, edifícios de escritórios, centros de dados, fábricas e infraestrutura em geral.

Quando máquinas operam dentro de sistemas, o resultado é uma eficiência energética digitalizada. Ao criar um fio digital ao longo do ciclo de vida de qualquer instalação, torna-se possível construir centros de dados com impacto negativo no carbono.

Mesmo que você possa diminuir a demanda de energia em 90%, você não pode reduzi-la a zero. Portanto, toda essa eletricidade deve ser gerada sem emissões. Com isso, entra a energia com zero emissão de carbono. Onde quer que o sol brilhe e o vento sopre, você pode criar energia e gerá-la no local via uma microrrede e recursos energéticos distribuídos ou comprá-la da rede. Nesse contexto, é possível ganhar independência energética ao garantir acesso descentralizado, preços de longo prazo ou ambos.

Testando a teoria

No primeiro teste, as soluções existem em escala? Ao contrário de outras inovações de tecnologia limpa, a resposta é claramente “sim” — todas essas são tecnologias comprovadas que já estão amplamente em uso.

O segundo teste é: essas soluções em trio realmente resolvem os dois desafios que enfrentamos? De acordo com os últimos modelos de energia e emissões, há esperança.
Em relação à descarbonização, três opções viáveis para o Net Zero até 2050 constroem seus caminhos na mesma solução de eletrificação, eficiência energética digitalizada e energia com zero emissão de carbono:

1) Cenário de zero emissão até 2050 da Agência Internacional de Energia
2) Modelo de zero emissão até 2050 do Instituto de Pesquisa em Sustentabilidade Schneider
3) Modelo da Rewiring America, think tank dos EUA

E quanto à independência energética? Uma análise inicial do think tank alemão Agora Energiewende identifica uma avenida promissora para reduzir 80% da dependência da União Europeia (UE) de gás natural importado até o final de 2027. Trata-se de um trajeto baseado no mesmo trio de soluções.

Não é coincidência que as soluções para ambas as crises sejam as mesmas. Fundamentalmente, elas exigem que todos nós façamos mais com menos energia e emissões. A eletrificação combinada com a digitalização, conhecida como Eletricidade 4.0, é como você faz isso em grande escala.
Acelerando a adoção

Embora os cálculos estejam prontos, o trabalho continua. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para acelerar a transição energética. Felizmente, existem muitas externalidades positivas para a implementação em massa da eletrificação, eficiência energética e energia com zero emissão de carbono, tais como:

⦁ No cenário de zero emissão da IEA, o produto interno bruto global expande-se em mais de 40% até 2030;
⦁ Residências digitalizadas e eletrificadas podem economizar de 10% a 30% nas contas de eletricidade dos proprietários, de acordo com o Instituto de Pesquisa em Sustentabilidade da Schneider Electric;
⦁ Segundo a Rewiring America, embarcar em um esforço nacional para expandir o trio de soluções economizaria aos domicílios norte-americanos até US$ 2.585 em custos energéticos anuais, enquanto criaria 25 milhões de bons empregos ao longo dos próximos 15 anos. O relatório da Agora Energiewende projeta ganhos econômicos semelhantes na UE.

Embora não haja soluções rápidas para as crises energética e climática que enfrentamos, existe, conforme o demonstrado, uma solução tecnologicamente viável. É preciso, entretanto, agir imediatamente, porque não é mais uma questão de destino – estamos falando de velocidade e escala.

Patricia Cavalcanti , VP de Digital Energy e Power Product América do Sul da Schneider Electric.

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